Babel na era de Nabônidas | Referências Bibliográficas
Nabônidas toma o poder em 556 a.e.c. Originário por parte de sua família da cidade de Harran na Alta Mesopotâmia, Nabônidas quer associar mais estreitamente a parte ocidental do Médio Oriente aos destinos do Império babilônio. Tenta impor o culto de Sin (deus da Lua), particularmente popular entre os arameus do oeste. Por uma razão que nos foge, Nabônidas deixa a Babilônia e se instala durante dez anos no coração da península arábica, no oásis de Tema. Deixa a direção da Babilônia ao príncipe herdeiro Bel-Shar-Usur. O exílio voluntário de Nabônidas escandaliza o clero babilônico de Marduk: na ausência do rei, é impossível celebrar na Babilônia a festa do Ano-Novo e, portanto, assegurar ao país a bênção divina.
Quando subiu ao trono não era mais um jovem, dado que sua mãe morreu pouco depois com a veneranda idade de 104 anos (teve funerais dignos de uma imperatriz). Astuto e saudável, em 555 a.e.c. retomou as hostilidades na Cilícia e nos dois anos sucessivos construiu grandes edifícios em pelo menos sete cidade, entre as quais Harran, Larsa, Ur e Sippar, deslocando-se pessoalmente para escavar entre as ruínas à procura dos cilindros de fundação dos antiqüíssimos templos sumérios e acadianos. Quando conseguia desencavá-los, copiava-os escrupulosamente e os anotava, especulando sobre cálculos aproximativos sobre quanto tempo antes dele teriam reinado aqueles seus remotíssimos predecessores, deixando notícias tão preciosas; não deixava mesmo de reprovar asperamente quem, inclusive o grande Nabucodonosor II, tivesse se desinteressado de questões tão importantes.
Parece que bem depressa esta paixão pela arqueologia se tornou uma espécie de fixação, se não o seu único empenho, ao qual relacionava uma outra obstinada propensão a desenvolver ritos e cultos, introduzindo inovações até os limites da heresia.
O deus de Nabônidas, como já mencionado, era Sin, o deus de Harran, para grande irritação do clero de Marduk, que lhe tornou a vida impossível e, por fim, rebelou-se abertamente contra ele. Então ele abandonou todas estas querelas e foi estabelecer-se o mais longe possível, no oásis da Arábia. Aqui, por uma dezena de anos, sem jamais voltar a por o pé em Babel, dedicou-se denotadamente à organização daquelas terras desoladas – dentre as quais menciona Jatrib, a atual Medina – dotando-as de vias comerciais e convidando para a colonização das novas terras tantos quantos quisessem, ao que muitos hebreus aceitaram o convite.
Em Babel, como vice-rei, deixou o filho Bel-char-ussur. Uma inscrição de Nabônidas, que não esconde uma certa complacência, dá conhecimento que a revolta contra Sin, isto é, contra ele mesmo, tinha provocado da parte do seus ofendido uma tal carestia que os babilônios “comiam-se entre si como cães”.
Mas sobre a Babilônia já assomava o poder persa.
Quando em 547 a.e.c. o rei persa Ciro II, o Grande, toma posse, de surpresa, do reino da Lídia, controlando todo o oeste da Anatólia, Nabônidas retorna à Babilônia e organiza a defesa da cidade. Mas não pode impedir que as tropas persas penetrem na Babilônia no outono do ano 539 a.e.c. Por um golpe de sorte, Ciro II consegue fazer entrar seus soldados na capital de seu adversário. Na Bíblica judaico-cristã, segundo o livro de Daniel, Bel-Shar-Usur (Baltazar) está, nesse momento, prestes a promover uma festa com os vasos sagrados tomados do Templo de Jerusalém por Nabucodonosor II. A rapidez com a qual desaparece então o Império Babilônio, mostra sobretudo, que Nabônidas não tinha conseguido unir todos os seus súditos em torno de sua concepção do Império.
Na Babilônia, uma hábil campanha de propaganda honra a clemência e a tolerância religiosa de Ciro, que se torna, em particular para os judeus deportados, o próprio tipo de salvador. Com efeito, Ciro permite à populações submetidas pela Babilônia retornar à sua pátria. Entre os doze guias que conduzem os habitantes do reino de Judá para seu país de origem, está o neto do rei Joahin, Zer-Babili, “semente da Babilônia” (Zorobabel, na Bíblia judaico-cristã). Entretanto, nem todos os deportados retornam e muitos deles preferem permanecer no país onde sua família reside há quase cinqüenta anos.
Babilônia, verdadeiro cadinho dos povos do Médio Oriente, se torna uma das capitais do Império Persa, sem que seja apagada a lembrança gloriosa de Nabucodonosor II. Com a conquista de Ciro no ano 539 a.e.c., o Oriente, do Mediterrâneo às fronteiras da Índia, entrou por dois séculos numa era de paz imperial sob a égide aquemênida.
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Babel na era de Nabônidas
O “farol da civilização” que esta representava para todo o Oriente Médio se apaga rapidamente, e a “taça de ouro nas mãos do Senhor”, como a chamava Jeremias, aos poucos irá perdendo o seu brilho. Para nós, hoje, é difícil entender por que aquele farol fosse tão famoso: pelo que consta, a sua luz não parece tão fulgurante nem vívida como a que se irradiará depois de Atenas, ou de Florença, ou Paris. A cultura babilônia parece reduzir-se substancialmente a uma erudição filológica: a literatura não revela força criativa e respeita uma uniformidade de vocação confessional.
Ora, o modo como era conservado, anotado, transcrito e armazenado todo o saber acumulado nos milênios, a partir dos sumérios naquela região do mundo é comparável em certos aspectos ao que se fez com a cultura na Idade Média, se bem que sob uma outra atmosfera e maior âmbito de interesses, nos conventos e universidades medievais.
De qualquer forma foi o mais importante centro da cultura semita, e podemos afirmar que o conhecimento astronômico, ou melhor astrológico dos doutores babilônios estava sem dúvida à altura do de seus colegas egípcios, e as ciências ocultas – a famosa magia dos caldeus – teve geniais e quiçá insuperáveis mestres.
Bem pouco, ao contrário, sabemos sobre a sua medicina. Heródoto, que ficou extasiado com a extraordinária especialização dos médicos no Egito, achou muito interessante o primitivo empirismo da terapêutica babilônica:
“Eis um hábito que eles têm: dado que não fazem uso de médicos, levam os doentes à praça. Os passantes aproximam-se do enfermo e perguntam qual é o seu mal, e se já o tiveram eles mesmos ou visto alguém sofre dele, aconselham-no a cura já conhecida por eles para a mesma doença. Não lhes é permitido, quando há um doente, passar adiante sem informar-se de que mal sofre”.
Tratava-se certamente de usos populares, uma espécie de “sindicato dos pobres” que confortava as pessoas que não podiam pagar um médico. Na verdade, os médicos, que eram sacerdotes, gozavam de altíssimo nível, fama e emolumentos proporcionais a seus méritos. Por outro lado, as muitas centenas de tabuinhas que tratam de diagnósticos e terapias escritas todas em sumério – a língua dos “adeptos da obra” – estão tão saturadas de fórmulas mágicas e tão terminologicamente obscuras a ponto de justificar plenamente aos nossos olhos a assistência “de rua”, ao ar livre.
Quanto ao direito, não consta que ninguém revogou ou reformou o Código de Hammurabi, e não parece suscitar nosso entusiasmo: das ruínas de Babel de Nabucodonosor II nada emergiu que comova pela originalidade de inspiração ou pelo encanto de uma antiga beleza. O rei, para adornar suntuosamente os lugares oficiais da sua capital nos ápice de seu poderio, não poupou despesas para contratar os maiores artistas da época. Como resultado, temos animais e monstros na Via Sagrada e no Portão de Ishtar. Executados perfeitamente, decalcam sem variações os modelos antigos e em sua metódica sequencia evidenciam a monotonia de um trabalho em série.